Quem é você de verdade? Você é o resultado dos seus genes ou de tudo o que já viveu? Este é um dos debates mais antigos e fascinantes da psicologia: natureza vs. criação. E, embora pareça uma discussão acadêmica, na prática atravessa o nosso dia a dia. Sempre que pensamos por que alguém é tímido, criativo, corajoso ou agressivo, estamos fazendo a mesma pergunta: isso estava “no sangue” ou foi aprendido com o ambiente?
A herança: um mapa escrito no nosso DNA
Não podemos negar que já nascemos com algo dentro de nós. A cor dos olhos, a altura, a predisposição a certas doenças… tudo isso está escrito no DNA. Mas também existem traços psicológicos que parecem estar marcados desde cedo: algumas crianças são tranquilas desde o berço, enquanto outras parecem ter energia inesgotável. Até mesmo a facilidade para a linguagem ou a música possui uma base hereditária.
Mas ter um mapa não significa seguir sempre o mesmo caminho. Os genes nos dão uma direção, mas não escrevem toda a história.
A criação: a força invisível do ambiente
Imagine dois irmãos gêmeos idênticos, com exatamente os mesmos genes. Um cresce em um lar cheio de carinho, onde os pais o incentivam a falar, explorar e errar sem medo. O outro, porém, é criado em um ambiente de críticas constantes, onde cada erro é motivo de zombaria.
O resultado? Duas personalidades muito diferentes, embora biologicamente tenham partido do mesmo ponto. Este é o peso do ambiente: a criação, a cultura, os amigos, a escola… tudo molda a nossa forma de ser. A experiência pode suavizar aquilo que parecia inato ou acentuar até se tornar parte central da nossa identidade.
A epigenética: a ponte entre natureza e criação
Durante muito tempo, acreditou-se que a genética era um destino fixo. No entanto, a epigenética mudou essa visão. Hoje sabemos que certos genes podem ser “ativados” ou “desativados” de acordo com nossas experiências. O estresse, a alimentação, os traumas ou o afeto recebido influenciam como esses genes se expressam.
É como se o DNA fosse um piano. As teclas estão lá desde o nascimento, mas a melodia depende de quem toca — e em quais circunstâncias.
Refletindo sobre a nossa própria história
Pense por um momento: que parte de você sente que vem “de fábrica” e qual você construiu ao longo do tempo? Talvez você sempre tenha sido sensível, mas aprendeu a esconder porque o ambiente via isso como fraqueza. Ou pode ser que sua personalidade forte tenha sido moldada por experiências difíceis, mesmo que biologicamente você fosse mais calmo.
Quando olhamos para a vida a partir dessa perspectiva, entendemos que não somos apenas o que herdamos nem apenas o que aprendemos. Somos o ponto de encontro das duas forças.
Natureza ou criação? Uma falsa dicotomia
O erro está em pensar que precisamos escolher um lado. Não é “preto ou branco”. Somos a soma do que trazemos nos genes e do que o mundo nos oferece. A ciência prova isso repetidas vezes: até mesmo os maiores talentos precisam de prática e apoio; e mesmo as circunstâncias mais difíceis encontram limites no biológico.
A parte mais importante desse debate não é decidir o que pesa mais, mas reconhecer que temos margem de ação. Não podemos mudar nossa genética, mas podemos trabalhar no nosso ambiente, nos nossos hábitos, nas nossas relações. É aí que reside o verdadeiro potencial de transformação.
Um convite a olhar para dentro
Da próxima vez que você se perguntar por que é como é, pense nessa mistura única que o compõe. Uma marca genética que acompanha desde o início e um conjunto de experiências que deixaram sinais invisíveis na sua forma de sentir e agir.
E, acima de tudo, lembre-se: mesmo que você não possa mudar os seus genes, sempre pode escrever novas páginas da sua história.
👉 No nosso canal do YouTube você encontra um vídeo claro e visual sobre esse debate, com exemplos como a tábula rasa de John Locke e os últimos avanços da epigenética. Uma forma simples de compreender como a psicologia explica quem somos.